"Refazenda" de Gilberto Gil completa 51 anos
Lançado em 1975, álbum marcou uma nova fase na carreira do artista baiano e transformou a simplicidade da vida interiorana em poesia musical.
Em uma carreira repleta de clássicos, poucos discos ocupam um lugar tão singular quanto Refazenda, de Gilberto Gil. Lançado em 1975, o álbum completa 51 anos consolidado como uma das obras mais sensíveis, inventivas e brasileiras da música popular nacional.
Produzido poucos anos após o retorno de Gil do exílio imposto pela ditadura militar, Refazenda representou uma mudança de rumo artística. Se os trabalhos anteriores dialogavam fortemente com a efervescência tropicalista e as experimentações do rock psicodélico, o novo álbum voltava o olhar para a terra, para a natureza e para as raízes profundas da cultura brasileira.
Em minha visão, o título já indicava a proposta. Unindo as palavras "refazer" e "fazenda", Gil criava um conceito que atravessa toda a obra: a reconstrução do indivíduo por meio da conexão com o campo, com os ciclos naturais e com formas mais simples de viver.
A faixa-título tornou-se um dos marcos da carreira do cantor. Com sua melodia delicada e letra contemplativa, "Refazenda" apresenta ao ouvinte um universo de árvores, pássaros, plantações e reflexões sobre o tempo. Mais do que uma canção, tornou-se uma espécie de manifesto poético sobre a relação entre humanidade e natureza.
O álbum também trouxe composições memoráveis como "Pai e Mãe", "Jardim da Infância" e "Tenho Sede", esta última uma releitura da música de Dominguinhos e Anastácia. Em todas elas, Gil constrói uma sonoridade que mistura elementos do forró, da música regional nordestina, da MPB e das influências internacionais que absorveu ao longo da carreira.

Na época de seu lançamento, o Brasil atravessava profundas transformações sociais e políticas. Enquanto o chamado "milagre econômico" começava a mostrar sinais de esgotamento e a repressão ainda fazia parte da realidade nacional, Gil apresentava uma obra que apostava na introspecção e na busca por novos significados para a vida cotidiana.
Longe de representar alienação, essa escolha artística revelou-se profundamente política. Ao valorizar a cultura popular, os saberes do interior e a relação equilibrada com a natureza, Refazenda oferecia uma alternativa simbólica ao modelo de desenvolvimento acelerado que dominava o país.
Com o passar das décadas, o disco ganhou reconhecimento crescente entre críticos e estudiosos da música brasileira. Hoje é frequentemente apontado como o primeiro capítulo da chamada "trilogia Re", composta também pelos álbuns Refavela (1977) e Realce (1979), três trabalhos que exploram diferentes dimensões da identidade brasileira.
A influência de Refazenda ultrapassa gerações. Seu espírito ecológico, sua valorização da vida comunitária e sua defesa de uma existência menos acelerada dialogam diretamente com debates contemporâneos sobre sustentabilidade, saúde mental e qualidade de vida.
As canções do álbum continuam oferecendo um convite raro: desacelerar, observar e reencontrar sentido nas coisas simples. O álbum permanece atual, inspirador e profundamente necessário — uma prova de que algumas canções envelhecem como árvores: crescem, criam raízes e continuam dando frutos.
Jeff Soares

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