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Caso Jéssica Augusta, Chat GPT e a Espiritualidade Digital

Somos espelhos.

Caso Jéssica Augusta, Chat GPT e a Espiritualidade Digital
Imagem Internet

Esses dias, a internet inteira viu a sequência de vídeos da Jéssica Augusta. Primeiro, ela apareceu dizendo que tinha transcendido, que era uma escolhida, alguém especial que tinha recebido uma verdade maior. Depois, em outro vídeo, ela disse que era Egum, espírito de morto. Depois disse que era ela mesma, depois disse que era Exu, entidade mensageira, regente dos caminhos e das comunicações nas religiões afro-brasileiras. Era como se a cada vídeo ela vestisse uma identidade diferente, num intervalo tão curto que parecia que a mente dela estava rodopiando sem conseguir fixar no chão.


Em um dos vídeos, ela dizia que quem a chamava de louca era alienado, porque só pessoas alienadas julgavam os outros. Mas nesse mesmo discurso, ela chamava essas pessoas de alienadas, e não percebia que isso também era um julgamento. É um paradoxo comum em quem está tomado por um sentimento de superioridade espiritual ou de mania: acredita profundamente que está apenas mostrando a verdade, mas cai na mesma armadilha que critica.


No fim, ela buscou no ChatGPT o significado do próprio nome, Augusta. Quando leu que significava “majestosa, grandiosa, venerável”, usou essa informação como confirmação de que era mesmo especial. E isso mostra algo muito profundo sobre os riscos do caminho espiritual sem ancoragem: qualquer palavra vira sinal, qualquer resposta vira profecia. O ChatGPT virou, nesse momento, um oráculo moderno pra validar tudo que já estava rodando dentro da mente dela. Não porque a inteligência artificial queira ou tenha consciência, mas porque, com o prompt certo, qualquer nóia pode ser confirmada.


Eu falo disso com lugar de fala. Se não fossem meus filhos, eu poderia ter sido uma Jéssica Augusta. No início do meu despertar espiritual, eu queria salvar todo mundo ao meu redor. Apontava quem julgava e quem não julgava, dizia quem tava no caminho e quem não tava, principalmente meu namorado da época e meu pai. Eu achava que tinha descoberto a verdade única e que todo mundo era cego por não enxergar o que eu via. Quando a gente desperta, no início, é assim mesmo. É natural. Porque é como se pela primeira vez tu sentisse algo tão grande dentro de ti que parece que virou o próprio Deus.




Mas é exatamente por isso que não existe espiritualidade sem apoio psicológico. Antigamente até poderia existir, porque o mundo era outro, o tempo era outro, os rituais eram feitos em comunidades onde cada pessoa tinha seu papel e era sustentada pela força coletiva. Mas hoje, com tecnologias como o ChatGPT, que te respondem qualquer coisa a qualquer hora, qualquer ilusão pode se fortalecer. Se tu perguntar “quem sou eu?” em surto, ele vai te dar respostas que alimentam ainda mais o ego inflado, sem filtro, sem discernimento.


Somos espelhos. Tudo que ela vê nos outros está nela mesma. Tudo que tu vê nela também está em ti. Por isso, energeticamente, não é bom expor processos espirituais para milhões de pessoas. É abrir portais sem filtro, sem contenção, sem força suficiente pra lidar com o que vem de volta.


Que esse texto não seja julgamento, mas chamado à consciência. Porque ninguém tá livre de enlouquecer assim. Ninguém tá livre de se perder em si mesmo. E é por isso que o verdadeiro caminho espiritual é buscar ser mestre de si – dos próprios pensamentos, das próprias emoções, das próprias dores e luzes.


Esse é o Dharma: o caminho correto, a verdade pessoal, o propósito que nos alinha com o que viemos viver aqui. Não é sobre ser maior ou menor do que ninguém. É sobre estar no caminho certo pro teu espírito, sem precisar de plateia pra validar o que só Deus conhece.


Enviando luz pra Jéssica. Que ela encontre seu centro, que seu espírito volte em paz pro corpo. E que todos nós possamos aprender com sua dor, pra não precisarmos passar pelo mesmo.





Amanda Beatrice

Taróloga

Colunista

Apresentadora

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