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Feminicídio: 60 Mulheres Assassinadas e Um Governo de extrema direita Eleito

Que Rio Grande do Sul estamos construindo?

Feminicídio: 60 Mulheres Assassinadas e Um Governo de extrema direita Eleito
Imagem Chat Gpt

O Rio Grande do Sul acaba de produzir uma contradição que deveria incomodar profundamente qualquer sociedade que pretenda ser civilizada: enquanto o Estado chega a 60 feminicídios registrados em 2026, os gaúchos elegeram, no primeiro turno, Luciano Zucco (PL) para governar o Estado pelos próximos quatro anos, com 58,05% dos votos válidos.

Não se trata de estabelecer uma relação automática entre a eleição de um governo de extrema direita e cada crime cometido contra uma mulher. Seria até mesmo intelectualmente desonesto. A questão é outra aqui: que prioridade a sociedade está dando à violência contra as mulheres quando escolhe, majoritariamente, um projeto político identificado com a direita conservadora extremista? São 60 vidas interrompidas. Sessenta histórias, famílias, filhos, mães, amigos e futuros destruídos. E esse número não pode ser reduzido a uma estatística policial.


O problema é que o feminicídio não começa no momento em que uma mulher é assassinada. Ele nasce muito antes, em uma cultura que ainda tolera o controle masculino sobre o corpo, a roupa, os relacionamentos, a sexualidade, a autonomia e as escolhas das mulheres. Nasce na piada machista, na relativização da violência doméstica, na desqualificação das denúncias e na ideia de que conflitos conjugais são problemas privados.


O próprio Estado hoje reconhece a dimensão do problema: somente em 2026, antes mesmo do encerramento do ano, a estrutura de segurança gaúcha registrava milhares de ocorrências de violência contra mulheres. Em agosto, por exemplo, foram registrados nove feminicídios em um único mês. Quando a violência chega ao assassinato, quase sempre estamos diante do fracasso de uma cadeia inteira de prevenção, proteção, educação e responsabilização.


E aqui está o ponto que precisa ser colocado sobre a mesa: governo não combate feminicídio apenas com polícia e prisão. Polícia é indispensável, investigação é indispensável, punição é indispensável. Mas não são suficientes. É preciso fortalecer delegacias especializadas, ampliar casas de acolhimento, garantir medidas protetivas, oferecer atendimento psicológico e jurídico, capacitar agentes públicos, trabalhar a prevenção nas escolas e enfrentar aquilo que talvez seja o elemento mais difícil de combater: a cultura que ensina homens a confundirem masculinidade com domínio.


 Em junho, a própria Polícia Civil gaúcha lançou o Projeto Despertar, com grupos reflexivos voltados a agressores, reconhecendo que enfrentar a epidemia de feminicídios também exige olhar para o comportamento masculino e promover mudança cultural. 


É justamente nesse ponto que a escolha política do Rio Grande do Sul merece ser debatida sem medo e sem maquiagem. Zucco venceu democraticamente Juliana Brizola sua principal adversária, e sua eleição precisa ser respeitada. Mas respeitar o resultado das urnas não significa abandonar a crítica política. O governador eleito chega ao Palácio Piratini respaldado por uma votação expressiva e por uma coligação que reuniu PL, Republicanos, PP, Novo, Podemos, União e DC. A própria cobertura eleitoral identificou o resultado como uma consolidação do alinhamento do Estado à extrema direita conservadora.


Portanto, o desafio será cobrar desse campo político aquilo que qualquer governo deveria entregar: segurança para as mulheres, políticas públicas permanentes e compromisso concreto com a vida. Mas será possível diante do radicalismo? Será possível cobrar políticas públicas de quem não as tem e nunca as teve? Será que é possível cobrar de um Governador que se elegeu a apoiado no extremismo que promove a aquisição de armas? 


É muito fala-se em defender a família, mas de que família estão falando quando uma mulher não consegue sobreviver dentro da própria casa? Defender a família deveria significar garantir que nenhuma mulher precise escolher entre permanecer em uma relação abusiva ou ficar sem dinheiro, sem moradia e sem proteção. Deveria significar que uma denúncia seja levada a sério antes que se transforme em boletim de ocorrência por homicídio. Deveria significar que meninas cresçam sabendo que seus corpos não pertencem a ninguém.






Jeff Soares

Jornalismo

Músico

Apresentador



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