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O Peso Silencioso da Maternidade Solo

Abandono masculino e Desigualdades Interseccionais

O Peso Silencioso da Maternidade Solo
Imagem Internet/Unsplash

Ser mãe solo não é “fazer o papel de dois”. Essa é uma ideia romantizada que esconde uma dura realidade: a de carregar nos ombros uma estrutura inteira de cuidado e sustento que, por direito e ética, deveria ser compartilhada. Se tu olhares para essa jornada de perto, verás que ela exige uma força desmedida, mas, acima de tudo, escancara desigualdades profundas e falhas estruturais da nossa sociedade. Para entender esse cenário de forma clara, precisamos analisar dois fatores centrais e indissociáveis: a irresponsabilidade paterna e a interseccionalidade.


A maternidade solo raramente nasce de uma escolha isolada da mulher; na grande maioria das vezes, ela é fruto do abandono. Essa ausência masculina se manifesta de várias formas, a começar pelo próprio registro civil, no qual milhares de crianças são registradas todos os anos sem o nome do pai na certidão. Contudo, a omissão vai muito além da burocracia. Quando o homem se retira, seja de forma física, financeira ou emocional, ele descola a sua identidade da responsabilidade de ter gerado uma vida. A mãe, por sua vez, assume sozinha não apenas os custos econômicos, como a alimentação e a moradia, mas também a gestão mental e o cuidado diário: as noites mal dormidas, o acompanhamento escolar, a saúde e o afeto. A cultura patriarcal ainda naturaliza essa desigualdade ao perdoar o pai que se limita a "ajudar quando dá" ou a pagar uma pensão insuficiente, enquanto cobra da mulher uma perfeição inalcançável e sem margem para cansaço.


Entretanto, esse fardo não pesa da mesma maneira para todas as mulheres, e é aqui que entra o conceito de interseccionalidade. Essa ferramenta nos ajuda a compreender que a experiência de ser mãe solo é atravessada por diferentes camadas de opressão, como classe social, raça e território. Não existe uma "mãe solo universal". Uma mulher de classe média que conta com rede de apoio privada vivencia a maternidade solo de forma completamente diferente de uma mulher periférica ou negra. No Brasil, as estatísticas mostram que a maioria das mães solo são mulheres negras, as quais acumulam os menores salários do mercado de trabalho e enfrentam diariamente a sobreposição do machismo e do racismo estrutural. Além disso, a falta de creches públicas de qualidade, o transporte coletivo precarizado e o acesso limitado a serviços básicos de saúde e saneamento tornam a rotina das mães moradoras das periferias uma constante batalha pela sobrevivência.


Diante disso, fica claro que a maternidade solo não é um drama individual ou um problema estritamente familiar, mas sim uma questão pública e política. A omissão dos homens é alimentada e acobertada por um sistema que desvaloriza o trabalho de cuidado, enxergando-o como uma obrigação natural da mulher, e não como uma função social indispensável. Transformar essa realidade exige, por um lado, a cobrança rigorosa da responsabilidade legal e afetiva dos pais e, por outro, o fortalecimento de políticas públicas, como a ampliação de creches em tempo integral, a garantia da igualdade salarial e o suporte da assistência social. Somente assim será possível tirar do isolamento as mulheres que sustentam o futuro e fazer do cuidado um compromisso ético de toda a sociedade.






Roberta Luzzardi


Educadora. Defensora do Feminismo Interseccional,

da Educação Pública e da Agroecologia.

Comentários (1)

Viviane Guerra da Rocha
Viviane Guerra da Rocha

Sou mãe solo, e já me sentia assim mesmo quando o pai da minha filha estava em casa... Ser mulher em uma sociedade patriarcal é exaustivo, em muitos momentos. E isso que sei que tenho alguns privilégios, por vários motivos. Importante a união das mulheres e que as que tem voz, falem por quem ainda não tem.

2 Semanas atrás