BARRANÇO
[...] Essa permanente dissimulação, aparência de profundidade é ornamento utilizado para esconder vazios existenciais, solidão, medo, dúvida.
BARRANÇO. Neologismo inventado para caracterização de um sentimento, um sentido humano, um ranço de gente hipócrita, dissimulada, fingida, barroca. A palavra institui uma tensão entre o Barro, matéria com a qual trabalho e crio (a argila é para mim corpo, modelagem, origem, chão, terra); o Barroco como linguagem artística e cultural histórica, cujas características envolvem oposição entre luz e sombra, dobras, excessos, teatralidades, ornamentos, adornos e arabesacos em excesso, ambiguidade, imprecisão, ambivalência (tudo é e não é), vaguezas intensionais, etc.; e a palavra Ranço, aquilo que apodrece sem deixar de permanecer, deixando impregnada a vida de uma espécie de mau cheiro moral, assim formando juntas o neologismo Barranço, palavra que uni Barro, Ranço, Balanço, Barrar, produzindo algo situado entre a matéria e o comportamento humano.
E gente hipócrita, dissimulada, fingida, barroca, ao menos aqui, não é simplesmente uma condenação moralista delas, pois o problema não é o Barroco em si, mas uma certa índole cultural, psicológica, que se apresenta como uma barroquização da conduta e das atitudes humanas, dos gestos diante do humano e da vida de um certo tipo de gente que vive de dobra sobre dobra, de máscara sobre máscara, de excesso de representação, de excessiva teatralidade, de espetacular fetichismo, de performaticidade sobre matéria que não viveu, sem existência e lastro no viver, enquanto oculta e dissimula o que realmente pretende.
Se Barroco seria uma espécie de dobra, Barranço é a dobra quando começa a feder. Se Barroco é excesso de forma, Barranço é o excesso de forma quando ela encobre podridão. Nas investigações que faço sobre Barroco mineiro, sem generalizações, afinal não dá para dizer o mesmo dos Gerais ao Norte ou no Noroeste, do Triângulo Mineiro, dos vales do Jequitinhonha, Mucuri ou Doce, da Zona da Mata mineira e menos ainda de onde no Brasil também se tem cultura barroco-colonial como herança material e imaterial cultural.
O neologismo permite separação entre a inequívoca potência estética, cosmológica e política do Barroco brasileiro em Minas Gerais, em suas fontes asiáticas e chinesas – já orientalistas antes mesmo do modernismo da geração de 1940 – daquilo que poderíamos chamar de barroquismo moral: essa espécie de zona de evasão para onde convergem todos os humanos em fuga do mundo e da experiência, nessa angustiante e permanente teatralização espetacular da vida que de tanto performatizar para preenchimento de vidas vazias sem concretude cheias de likes e seguidores digitais parecem mais um manifesto e latente desejo de migração, feito na Matrix, fuga escapistapara uma vida em mundo digital, fuga do concreto e do real sem precedentes históricos anteriores.
Essa permanente dissimulação, aparência de profundidade é ornamento utilizado para esconder vazios existenciais, solidão, medo, dúvida. É preciso desbarrocar! Não no sentido de eliminar o Barroco, mas de romper a crosta social de fingimento que há nas relações humanas, eliminando esse ranço aprodrecido que, sem desaparecer, é atualizado em reciclagens.
Fábio Brasileiro

fabioborgesbrasileiro@gmail.com
Pelotas – RS, 23 de agosto de 2026.
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