A Responsabilidade do Sacerdote
Um reflexão sobre o caso Jéssica e suas implicações.
Dentro da egrégora das Religiões Afro-Brasileiras hoje há muito ego. Um fenômeno cada vez mais comum são as auto-iniciações e o auto-reconhecimento. Por que isso tem ocorrido, se sabemos que uma iniciação de fato exige meses e anos de entrega?
Observando estudos, leituras e conversas com outros Sacerdotes e Sacerdotisas, vejo duas causas principais: pouca vontade de se entregar verdadeiramente ao sagrado e de passar pela desconstrução que ele exige, e também a falta de iniciativa de parte dos próprios dirigentes na formação.
Toda casa de axé, em qualquer vertente, precisa de filhos para sua manutenção física e espiritual, e para a manutenção dos Sacerdotes. Mas o cuidado deve ir além disso. Não é difícil encontrar casos como o de Jéssica Augusta, que já havia passado por surtos e, segundo relatos de conhecimento público, mesmo com histórico de transtornos psicológicos, teria sido submetida à consagração da Ayahuasca e sofrido um novo surto.
A Espiritualidade nos tira do ostracismo e nos leva a muitos lugares, mas também nos impõe responsabilidade sobre nossos filhos de Santo — uso o termo por ser o mais popular, mas vale para todos os iniciados. A responsabilidade do Sacerdote vai além de "cuidar do espiritual". A pergunta que fica é: quão empenhados estamos diante dessa responsabilidade?
Não é um caminho fácil, mas fomentar certos comportamentos é uma falta de respeito com o sagrado e com quem nos procura para se cuidar.
Como Sacerdotes, precisamos posicionar nossa visão e nosso parecer diante dos iniciados, justamente para que, quando houver um problema, possamos encaminhar para o tratamento correto.
É fundamental lembrar que somos vistos como Pais e Mães. Esse cargo não é algo que podemos simplesmente descartar. Ser Pai e Mãe de Santo é assumir, até o fim, o cuidado integral — espiritual, humano e ético — de quem nos confia sua fé.
Bruno Meirelles

Babalorixá, Tatá de Quimbanda, Músico, Escritor
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