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O Axé Nas Telas: A Espetacularização e a Guerra de Narrativas das Religiões de Matriz Africana

[...] A diversidade não deveria ser encarada como uma ameaça. Ela é parte da nossa história.

O Axé Nas Telas: A Espetacularização e a Guerra de Narrativas das Religiões de Matriz Africana
Imagem Chat Gpt

Existe uma preocupação cada vez mais evidente quando observamos a forma como as Religiões de Matriz Africana são apresentadas nas redes sociais: aquilo que deveria ser espaço de preservação da ancestralidade, de cuidado espiritual, de comunidade e de resistência histórica muitas vezes transforma-se em palco de disputas, performances inclinadas ao ensino de práticas errôneas e guerras por narrativa. Algo que nada tem a ver com a realidade de um Terreiro que carrega séculos de memória, resistência e reconstrução cultural, não um espetáculo.


Não se trata de criticar a presença das Religiões de Matriz Africana na internet e as pessoas que o fazem. Pelo contrário. As redes sociais podem ser ferramentas fundamentais para combater o racismo religioso, desmistificar preconceitos, apresentar conhecimentos e mostrar a beleza e a complexidade das tradições afro-brasileiras. O problema surge quando a necessidade de visibilidade começa a se sobrepor ao próprio sentido da tradição.


Por incrível que pareça é preciso lembrar que não existe uma única forma de vivenciar a ancestralidade africana no Brasil. Candomblé, Umbanda, Quibanda e suas diferentes nações, linhas, casas e tradições possuem histórias, fundamentos, linguagens e formas próprias de compreender o Sagrado. Mesmo dentro de uma mesma religião existem diferenças profundas. E essas diferenças não deveriam necessariamente ser tratadas como ameaças.


O problema é que, na era dos algoritmos, a complexidade raramente viraliza. A polêmica viraliza. A acusação viraliza. A frase de efeito viraliza. A disputa por legitimidade viraliza. E assim começamos a assistir a uma espécie de "guerra santa" dentro de comunidades que, historicamente, já enfrentaram — e ainda enfrentam — um inimigo muito maior: o racismo religioso.


Em determinados debates, sacerdotes e praticantes passam a disputar quem representa o "verdadeiro" Axé. Quem tem mais fundamento. Quem possui a linhagem mais legítima. Qual Religião seria mais "pura". Qual tradição estaria mais próxima da África. Quem pode ou não pode falar sobre determinado Orixá. Quem tem autoridade para ensinar. Quem estaria "deturpando" a tradição.


As discussões são importantes. Fundamento importa. História importa. Ancestralidade importa. Conhecimento importa. Mas existe uma diferença enorme entre preservar fundamentos e transformar diferenças em instrumentos de desqualificação do outro. Quando a religião passa a funcionar como uma disputa permanente por autoridade, corre-se o risco de reproduzir dentro das próprias comunidades algumas das lógicas de exclusão que durante séculos foram utilizadas contra elas.


A questão é particularmente delicada: trata-se da espetacularização e do linchamento virtual.


Nas redes sociais, o sagrado pode virar conteúdo. O ritual pode virar cenário. O conhecimento pode virar produto. A iniciação pode ser transformada em identidade pública. A espiritualidade pode ser convertida em estética. Tudo precisa ser fotografado, filmado, publicado, comentado e compartilhado. E depois questionado quando quase sempre ultrapassa os limites do bom senso.


A Ancestralidade, que durante gerações sobreviveu justamente porque determinados conhecimentos foram protegidos, passa a ser pressionada pela lógica da exposição permanente. Não significa que tudo precise permanecer escondido. Significa compreender que nem tudo precisa ser mostrado. E o mais importante, saber diferenciar o compartilhamento do sagrado com  simples entretenimento. Essa diferença deveria provocar uma reflexão profunda.


Enquanto pessoas negras e praticantes de Religiões de Matriz Africana ainda precisam enfrentar ataques, intolerância e tentativas de demonização de suas crenças, parte da energia da comunidade é consumida em disputas internas. É uma situação paradoxal. Lutamos para que o mundo reconheça nossa diversidade, mas às vezes somos nós mesmos que tentamos estabelecer uma única régua para medir a legitimidade do outro.


Talvez seja necessário recuperar uma ideia simples: Ancestralidade não precisa de espetáculo para existir. A força das Religiões de Matriz Africana está justamente na sua capacidade histórica de resistir, reinventar-se e preservar diferentes formas de relação com o sagrado. A diversidade não deveria ser encarada como uma ameaça. Ela é parte da nossa história.


Talvez o grande desafio do Axé na contemporaneidade seja justamente encontrar equilíbrio entre visibilidade e preservação. Entre ocupar espaços públicos e proteger aquilo que é íntimo. Entre ensinar e respeitar os limites do ensinamento e reconhecer a ancestralidade do outro.






Jeff Soares

Jornalismo

Músico

Apresentador


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