O Papel da Mulher no Brasil: Entre a Lei e a Realidade
[...] a igualdade precisa sair do papel com ações práticas
Na obra clássica O Segundo Sexo, a filósofa Simone de Beauvoir defendeu uma ideia essencial: os papéis que a sociedade impõe às mulheres não nascem da biologia, mas são criados pela cultura ao longo da história. Quando olhamos para o Brasil de hoje, essa reflexão continua urgente. Embora a Constituição de 1988 garanta que homens e mulheres são iguais perante a lei, o dia a dia mostra um abismo entre o texto e a prática. Dois grandes fatores alimentam essa desigualdade: a herança de uma cultura machista que afasta as mulheres das decisões de poder e a sobrecarga silenciosa do trabalho doméstico.
O primeiro ponto está na nossa história. Como explicou o historiador Sérgio Buarque de Holanda, o Brasil se formou sob uma estrutura patriarcal, onde a figura masculina centralizava a autoridade na família e na vida pública. Hoje, isso se reflete na baixa presença feminina na política e nos cargos de alta diretoria em empresas. Quando há poucas mulheres onde as leis e as decisões econômicas são feitas, fortalece-se a falsa ideia de que o espaço público não lhes pertence. Essa ausência nos espaços de poder normaliza problemas graves, como a diferença salarial entre pessoas que exercem a mesma função e até a tolerância à violência de gênero.
O segundo obstáculo é o que os especialistas chamam de economia do cuidado. Dados do IBGE comprovam que as mulheres brasileiras dedicam praticamente o dobro do tempo dos homens às tarefas da casa e ao cuidado com crianças, idosos ou doentes. Essa dupla jornada consome horas que poderiam ser investidas em estudo, cursos de qualificação, lazer ou avanço profissional. Como resultado, muitas mulheres acabam presas a empregos informais, com menor remuneração e sem estabilidade, o que compromete sua independência financeira.
Para mudar esse cenário, a igualdade precisa sair do papel com ações práticas. O Estado e a sociedade precisam agir em pelo menos duas frentes complementares: garantir a aplicação das leis de igualdade salarial e incentivar a presença feminina em cargos de liderança, punindo discriminações explícitas ou veladas e expandir a rede de creches públicas e centros de convivência em tempo integral. Dividir a responsabilidade do cuidado com o poder público é o passo fundamental para aliviar a rotina feminina.
Enquanto cuidar da casa e da família continuar sendo visto como obrigação exclusiva da mulher, a plena cidadania continuará sendo um privilégio. Construir uma sociedade mais justa exige reconhecer que o desenvolvimento do país depende, obrigatoriamente, da autonomia e da valorização das mulheres.
Por Roberta Luzzardi

Educadora. Defensora do Feminismo Interseccional,
da Escola Pública e da Agroecologia.
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