Ian Gillan, 81 anos: A Voz Que Decidiu Continuar
Hoje eu não consigo ouvir Ian Gillan apenas como o homem que cantou “Child in Time”. Com 81 anos, ele representa algo muito maior: a resistência de uma geração que ajudou a inventar o hard rock e que se recusou a envelhecer em silêncio.
Hoje, 19 de agosto de 2026, Ian Gillan completa 81 anos. E talvez seja impossível falar dessa data sem sentir aquela mistura estranha de nostalgia, gratidão e um certo aperto no peito. Gillan não é apenas um cantor para mim, ele é um Mestre.
Foi na adolescência à descoberta. É aquela sensação de colocar um disco para tocar e perceber, ainda jovem, que uma voz humana poderia parecer capaz de atravessar paredes. Ian Gillan nasceu em Hounslow, na Inglaterra, em 19 de agosto de 1945. Antes de se tornar a voz do Deep Purple, passou por grupos como The Javelins e Episode Six. Foi justamente no Episode Six que dividiu caminho com Roger Glover, parceria que mais tarde seria fundamental para a história do Deep Purple.
Mas foi em 1969 que sua vida — e a história do Rock — mudaram de maneira definitiva. Gillan entrou no Deep Purple ao lado de Roger Glover. A partir dali vieram Deep Purple in Rock, Fireball, Machine Head, Made in Japan e Who Do Think We Are. E veio também uma das vozes mais impressionantes que o Rock já conheceu. Quando Ian Gillan gritava, não parecia simplesmente estar cantando. Parecia estar rasgando o céu.

“Child in Time” talvez seja o exemplo definitivo disso. Mas Gillan não foi só agudos e potência vocal. Sua contribuição para o Deep Purple passou pela força, pela teatralidade, pelo humor, pela personalidade e por uma capacidade quase sobrenatural de transformar palavras em acontecimentos.
E há algo particularmente fascinante nele: Gillan nunca pareceu interessado em ser uma figura perfeitamente comportada. Ele sempre teve suas excentricidades. Isso é inegável. É um homem de opiniões fortes, humor peculiar, pensamento inquieto e uma personalidade que seus próprios companheiros descrevem como intensa e, às vezes, excêntrica.
Em entrevista recente, ele falou até sobre uma experiência que interpretou como possível contato com seres de outro mundo. Ao mesmo tempo, revelou seu gosto pela vida simples, pelo mar, pelos amigos, pelas conversas e pela música tocada sem grandes pretensões.
Talvez seja justamente isso que eu mais admire nele. Ian Gillan nunca pareceu querer viver no passado.Ele preferiu continuar a maneira dele, mas continuar.
Sua história não é uma linha reta. Deixou o Deep Purple em 1973 e, depois de um período afastado, construiu sua própria trajetória com diferentes formações sob o nome Gillan. Entre o final dos anos 1970 e o início dos 1980, lançou trabalhos importantes e consolidou uma identidade que não dependia exclusivamente do Purple.
Mas o grande plot twist estava por vir: Ian Gillan foi parar no Black Sabbath. Em 1983, ele assumiu os vocais da banda de Tony Iommi e participou de Born Again, um grande disco. É impossível imaginar duas identidades mais diferentes e, ao mesmo tempo, tão complementares dentro do universo do heavy metal.De um lado, o peso sombrio do Sabbath. Do outro, aquela voz aguda, teatral e explosiva de Gillan. Foi uma passagem curta, mas histórica.

Depois veio 1984. E o Deep Purple voltou. Gillan, Ritchie Blackmore, Roger Glover, Jon Lord e Ian Paice novamente juntos. Perfect Strangers mostrou ao mundo que algumas bandas podem atravessar o tempo e voltar carregando não apenas nostalgia, mas relevância. Mas como todo mundo sabe, faz parte do DNA do Deep Purple os conflitos. Gillan e Ritchie Blackmore tiveram uma relação marcada por enormes tensões. Blackmore deixou o Deep Purple novamente em 1993, depois de anos de conflitos, e durante décadas parecia improvável imaginar os dois dividindo novamente um palco.
Mas a vida tem dessas ironias. No dia 12 de agosto de 2026, poucos dias antes do aniversário de Gillan, Blackmore voltou ao palco com o Deep Purple pela primeira vez em 33 anos. E tocaram “Smoke on the Water”. Gillan recebeu Blackmore chamando-o de “a grande lenda, o imortal”. Deixou de ser música e virou emoção pura, transformando-se no momento do ano na música até aqui.

Aos 81, Gillan ainda está aqui
Ian Gillan poderia ter virado apenas uma fotografia dos anos 1970. Poderia ter sido eternizado como aquele homem de cabelos compridos, microfone na mão, gritando diante de milhares de pessoas. Mas não. Ele continuou. O Deep Purple continua.
A voz mudou, naturalmente. Aos 81 anos, seria absurdo exigir que o instrumento vocal de Gillan fosse exatamente aquele de 1972. Hoje sua voz está em um registro mais baixo, mas continua imediatamente reconhecível. E o próprio Deep Purple segue gravando e fazendo shows, mesmo com sua dificuldade de visão.
É aí que eu penso sobre envelhecer. Talvez envelhecer não seja preservar aquilo que fomos. Talvez seja descobrir o que ainda podemos ser. Gillan não precisa mais provar que consegue cantar como cantava aos 25 anos. Ele já provou. O que ele faz agora é mais interessante: continua sendo Ian Gillan. Com seus defeitos. Com suas manias. Com seu humor. Com suas histórias mirabolantes sendo musicadas pela Banda. Com suas memórias. Com uma voz diferente, mas ainda absolutamente sua.
Feliz aniversário, Ian Gillan.
E obrigado por tudo!
Jeff Soares

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