Colorismo: A Cor da Pele Também Pode Determinar o Lugar Que Nos Deixam Ocupar, Inclusive no Próprio Movimento Negro
[...] Nós negros, deveríamos ser uma força só quando se trata de racismo .
Eu demorei para entender que o racismo não se manifesta apenas na oposição entre pessoas negras e brancas. Existe uma outra engrenagem, mais silenciosa, que atravessa a nossa sociedade e que muitas vezes acontece dentro da própria população negra: o colorismo.
Falar sobre colorismo é falar sobre como diferentes tonalidades de pele podem determinar experiências completamente diferentes dentro de uma sociedade estruturalmente racista. Quanto mais clara a pele de uma pessoa negra, muitas vezes maior é a possibilidade de ela ser aceita em determinados espaços. Quanto mais escura, maior pode ser a exposição ao preconceito, à rejeição e à violência.
Eu vejo o colorismo como uma espécie de régua cruel criada pelo racismo. Uma régua que não deveria existir, mas que insiste em medir quem é considerado mais bonito, mais apresentável, mais confiável ou mais adequado para ocupar determinados lugares.
E isso começa muito cedo. Está na criança de pele retinta que escuta que o colega é “mais bonito” porque tem a pele mais clara. Está na menina negra que aprende a odiar o próprio cabelo porque ouviu durante anos que cabelo bom é cabelo liso. Está no jovem que percebe que determinados traços são elogiados quando aparecem em alguém de pele mais clara, mas tratados como motivo de piada quando aparecem em alguém retinto. Também está no mercado de trabalho, nas relações afetivas, na televisão, na publicidade e até dentro das próprias discussões sobre representatividade.
O problema é que o colorismo muitas vezes é tratado como uma simples questão de preferência. Não é.
Preferência pessoal não nasce no vácuo. Ela é construída por referências sociais, históricas e culturais. Durante séculos, fomos ensinados a associar beleza, poder, inteligência e sucesso à branquitude. E, dentro da população negra, essa lógica também pode produzir uma hierarquia baseada na tonalidade da pele.
É preciso deixar claro: uma pessoa negra de pele clara não deixa de sofrer racismo por ser mais clara. O que muda são determinadas experiências e privilégios relativos dentro da própria estrutura racial.
Eu não acredito que combater o colorismo seja criar uma nova divisão entre negros de pele clara e negros de pele escura. Pelo contrário. É justamente reconhecer que existem experiências diferentes para que possamos enfrentar o problema com honestidade e juntos. Precisamos falar sobre isso sem transformar a discussão em uma competição de sofrimento.
O racismo já nos ensinou durante séculos a olhar uns para os outros como diferentes, inferiores ou superiores. Não podemos reproduzir essa lógica entre nós. Combater o colorismo significa reconhecer a diversidade negra. Significa entender que pele retinta não é sinônimo de feio, que cabelo crespo não é cabelo ruim, que traços negros não precisam ser suavizados para serem considerados bonitos. Muito pelo contrário. Existe uma beleza imensa em todas as tonalidades da negritude.
É devolver às pessoas negras o direito de existir sem precisar pedir autorização para serem bonitas, inteligentes, competentes ou dignas. Ou seja, para ser o que elas quiserem.
Eu penso que falar de colorismo é, antes de tudo, falar sobre autoestima, identidade e poder. Porque quando uma sociedade ensina uma pessoa a rejeitar a própria aparência, ela não está apenas produzindo insegurança. Está dizendo a ela que existe uma versão de si mesma que seria mais aceitável.
Sou um homem negro de pele clara, minha cor não define o meu valor e caráter. E nenhuma tonalidade de pele deveria definir o lugar que alguém merece ocupar no mundo. Nós negros, deveríamos ser uma força só quando se trata de racismo. Porque eu não deixei de ser seguido, preterido, maltratado, eu não deixei de sentir a solidão da pele preta.
Jeff Soares

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