Ritchie Blackmore e Deep Purple: 33 anos depois, Uma Guitarra Volta a Encontrar sua antiga Casa
Reencontro acontece nesta quarta-feira, em Nova York, e pode representar muito mais do que uma participação especial: pode ser o fechamento de um dos capítulos mais turbulentos da história do rock
Certa feita disse que seria mais fácil acontecer uma reunião do Guns n’ Roses, do que Ritchie Blackmore subir no palco novamente com o Deep Purple, mas patrece que a vida nos prega algumas surpresas. Na noite passada (11), Ritchie e sua esposa Candice abriram uma live no Instagram e curiosamente, a live ficou escura e só se ouvia suas vozes, desiste de acompanhar. Acordo com o mundo do Rock agitação total, Ritchie declarou que participará do bis do show do Deep Purple na noite de hoje.
Nesta quarta-feira, 12 de agosto de 2026, em Nova York, o guitarrista deverá se juntar à banda durante o show no Northwell at Jones Beach Theater, em Wantagh, marcando seu primeiro encontro musical com o grupo em mais de três décadas. E talvez seja justamente por isso que o significado desta noite seja maior do que a duração de uma única música.
Blackmore deixou o Deep Purple pela última vez em 1993, depois de uma trajetória marcada por conflitos, rupturas e reconciliações. O guitarrista havia sido uma das figuras fundamentais da formação clássica que ajudou a transformar o grupo em uma das maiores bandas da história do hard rock, ao lado de Ian Gillan, Roger Glover, Jon Lord e Ian Paice. Foi dessa formação que nasceram discos como Deep Purple in Rock, Fireball e Machine Head, obras que ajudaram a definir a linguagem do rock pesado nos anos 1970.

Mas a história entre Blackmore e o Deep Purple nunca foi simples. O guitarrista deixou a banda pela primeira vez em 1975, depois do álbum Stormbringer que na época contava com David Coverdale e Glenn Hughes na formação, para formar o Rainbow ao lado de Ronnie James Dio. Anos depois, voltou ao Deep Purple na reunião da formação clássica, em 1984, que resultou em Perfect Strangers. A reconciliação, entretanto, não duraria para sempre. As antigas tensões reapareceram e, durante o período que culminou em The Battle Rages On..., lançado em 1993, a relação entre Blackmore e Ian Gillan voltou a se deteriorar. No fim daquele ciclo, Blackmore deixou novamente o grupo. Dessa vez, porém, havia uma diferença importante: parecia definitivo.
Durante anos, a possibilidade de Blackmore voltar a tocar com o Deep Purple foi tratada quase como uma fantasia dos fãs. Em 2016, quando a banda entrou para o Rock and Roll Hall of Fame, o guitarrista sequer participou da apresentação. O episódio se tornou mais um símbolo da distância que havia entre Blackmore e a Banda.
Mas nos últimos anos, os sinais de uma reaproximação começaram a aparecer. Blackmore revelou que ainda mantém contato com integrantes do Deep Purple. Em abril deste ano, afirmou que Ian Paice ocasionalmente lhe envia mensagens e que também havia conversado com Ian Gillan.
Agora, aos 81 anos, Blackmore decidiu fazer aquilo que durante décadas pareceu impossível: voltar a colocar os pés no palco ao lado dos antigos companheiros.
O Deep Purple que receberá Blackmore hoje não é exatamente aquele que ele deixou. Jon Lord morreu em 2012. Steve Morse, que durante décadas ocupou o posto de guitarrista após a saída de Blackmore, também já não está na formação. Simon McBride é hoje o responsável pelas guitarras. Don Airey ocupa o lugar que um dia pertenceu a Lord. O único integrante da formação original que permanece no grupo é Ian Paice. Ou seja: Blackmore não está simplesmente retornando à sua antiga banda. Ele está encontrando uma banda que sobreviveu ao tempo, às perdas, às mudanças e às próprias feridas. E ai se encontra a beleza desse reencontro.
Uma Música e o Maior Riff da História
Blackmore declarou que a ideia partiu dele e que entrou em contato com Ian Gillan, que levou a ideia para os outros integrantes da banda:
"Na verdade, liguei... quer dizer, não liguei para ele, enviei meu pombo-correio de IA para o Ian Gillan [vocalista do Deep Purple] em Portugal, onde ele mora atualmente. E perguntei: 'O que você acha de eu subir ao palco só para um bis? Só uma das músicas. Não quero atrapalhar. Sem pressão, só para relembrar os velhos tempos.' Tenho 81 anos agora."
"Ele pareceu adorar a ideia, apresentou para a banda, recebeu a aprovação, e parece que vamos fazer isso mesmo."
"Meu roadie já está lá, montando meu amplificador. Mas vou usar um amplificador pequeno, mas muito potente. É o que uso quando gravo."
A participação está prevista para acontecer durante o bis, em uma única música. Blackmore afirmou que usará um pequeno amplificador e que será bom reencontrar "os velhos caras". A expectativa divulgada é de que o guitarrista participe de "Smoke on the Water", uma das canções mais emblemáticas de toda a carreira do Deep Purple.
Se realmente acontecer dessa maneira, será impossível não enxergar a dimensão desse momento. O riff que atravessou gerações será tocado novamente pelo homem que o criou. Não será apenas uma música. Será uma fotografia viva de 1972 atravessando 54 anos de história.
Será Blackmore olhando para Ian Gillan. Será Gillan olhando novamente para Blackmore. Será Ian Paice atrás da bateria e Roger Glover tocando o baixo. O espírito de Jon Lord finalmente descansará em paz. E, por alguns minutos, o tempo provavelmente deixará de existir. Não haverá mais 1973. Não haverá 1993. Não haverá as brigas, as entrevistas atravessadas, as divergências musicais ou as portas fechadas. Haverá apenas uma banda tocando em 2026.
Talvez Seja Uma Despedida
Estou escrevendo essa coluna emocionado e com lágrimas nos olhos. Porque esse momento parece o fim de um ciclo. Porque existe uma certa beleza nas coisas que acontecem uma única vez. Blackmore e Deep Purple não precisam voltar a ser o que foram. Não precisam reconstruir a formação clássica, gravar um disco ou sair novamente em turnê juntos. Talvez bastem alguns minutos. Alguns acordes. Uma guitarra. Uma voz. Um baixo. Uma bateria. E a compreensão silenciosa de que, apesar de todas as diferenças, eles construíram juntos algo que o tempo jamais conseguirá apagar.
Jeff Soares

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