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O Milagre de Nikolas: de R$ 36 mil aos 3,9 Milhões

Talvez este seja o fenômeno mais interessante — e mais perigoso — da política atual.

O Milagre de Nikolas: de R$ 36 mil aos 3,9 Milhões
Foto: Metrópoles

O deputado que transformou a polarização em método de comunicação agora precisa conviver com uma coisa que parece incomodá-lo tanto quanto seus adversários: perguntas.


Nikolas Ferreira descobriu uma coisa que a política brasileira demorou décadas para entender: há falas que rendem votos e há falas que rendem dinheiro. E, quando as duas coisas se encontram, temos um negócio bastante lucrativo. Em 2022, quando foi eleito deputado federal, Nikolas declarou à Justiça Eleitoral um patrimônio de aproximadamente R$ 36,8 mil. Quatro anos depois, a declaração apresentada para a eleição de 2026 aponta cerca de R$ 3,9 milhões. Cem vezes mais. É um crescimento impressionante.


Mas atenção: antes que os fiéis da seita digital levantem a bandeira da perseguição, ninguém está dizendo que enriquecer é crime. Não é. Patrimônio pode crescer por investimentos, rendimentos, aquisição e valorização de bens ou outras fontes legais. A questão é outra.


Quando alguém que ocupa um cargo público apresenta uma evolução patrimonial dessa dimensão, perguntar de onde veio o dinheiro não é perseguição. É jornalismo. É fiscalização. É democracia. Aliás, deveria ser uma coisa bastante simples.


Nikolas construiu sua carreira pública em torno de uma fórmula bastante conhecida: apontar o dedo, produzir fake news e transformar adversários políticos em personagens de uma guerra permanente. O método funciona muito bem: Um vídeo indignado aqui. Uma provocação ali. Uma acusação viral. Uma pauta moral cuidadosamente escolhida. Um adversário transformado em inimigo da família, da pátria, da liberdade ou de qualquer outro substantivo disponível naquele dia.


A máquina entra em funcionamento. Milhões assistem. Milhares compartilham. E o algoritmo agradece. O curioso é que essa lógica produz uma espécie de efeito colateral: quem passa a vida apontando para os outros inevitavelmente acaba tendo de responder algumas perguntas sobre si mesmo. É o preço mínimo da vida pública. R$ 36,8 mil virou R$ 3,9 milhões.


Aqui não há opinião. Há números. E números têm a inconveniente mania de não respeitar torcida organizada. O patrimônio declarado saltou de aproximadamente R$ 36,8 mil para R$ 3,9 milhões. Isso não significa automaticamente enriquecimento ilícito. Não significa crime. Não significa propriamente irregularidade. Significa que existe uma diferença patrimonial gigantesca que merece ser compreendida. E compreender não é acusar. Aliás, essa distinção deveria ser básica para qualquer pessoa que se proponha a discutir política seriamente.


A pergunta é bastante objetiva: qual foi a composição desse crescimento patrimonial?


Quanto veio de rendimentos? Quanto veio de investimentos? Quanto veio de atividade profissional Quanto veio da valorização dos bens? Quanto foi efetivamente acumulado ao longo desses quatro anos?


São perguntas tão banais que chega a ser curioso imaginar por que alguém se incomodaria com elas. A menos, é claro, que transparência só seja considerada uma virtude quando o patrimônio analisado pertence ao adversário.


Nikolas entendeu perfeitamente a lógica das redes sociais. E talvez seja justamente isso que explique sua força política. Na internet, você não precisa necessariamente estar certo. Precisa estar engajado.


A verdade exige contexto. A mentira exige apenas um compartilhamento.

A verdade pede leitura. A mentira pede um botão.

A verdade pode demorar dez minutos para ser explicada. A mentira cabe em quinze segundos.


E o algoritmo, esse grande democrata sem alma, distribui tudo igualmente — desde que gere reação. É aí que políticos como Nikolas encontraram um terreno fértil. A política deixou de ser apenas disputa por votos. Passou a ser disputa por narrativa. E atenção virou moeda.


Há, entretanto, um patrimônio muito maior do que os R$ 3,9 milhões declarados. A capacidade de mobilizar milhões de pessoas. Isso não aparece na declaração de bens. Não está em imóvel. Não está em conta bancária. Não está em automóvel. É influência. E neste caso uma má influência.


Talvez este seja o fenômeno mais interessante — e mais perigoso — da política atual. Nikolas não é apenas um deputado. É produto, personagem, comunicador e instrumento de mobilização política. E essa fronteira entre mandato e produção de conteúdo se tornou cada vez mais difícil de enxergar Isso deveria preocupar todos nós, independentemente de ideologia.


Porque quando o político descobre que uma fake news mantém sua audiência, temos um incentivo perverso: o jogo passa a valer mais do que a verdade.






Jeff Soares

Jornalismo

Músico

Apresentador


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