Luzes da Ribalta Foi Meu Primeiro Filme no Cinema
“Durante a nossa vida: Conhecemos pessoas que vem e que ficam, Outras que vem e passam...” Charles Chaplin
Lembro-me como se fosse hoje, ainda que tenha mais de 40 anos desde lá. Eu tinha sete anos e, na companhia de uma de minhas irmãs, Telma, estive pela primeira vez dentro de uma sala de cinema em Belo Horizonte, o Cine Humberto Mauro no Palácio das Artes, um equipamento multicultural e educacional público estadual.
Todas as vezes que vejo circulando pelas redes sociais essa linda imagem de Calvero diante da senhorita cega, Terry, aquela tarde me vem à memória como alegriazinhas de coisas muito importantes, tutaméias – e, ao menos para minha saudade de um tempo em que descobria a cidade e o cinema sinto assim, pois é uma das minhas mais antigas memórias dentro de ônibus, indo do Céu Azul ao centro de Belo Horizonte, naquele caso para viver e conhecer o mundo da sétima arte, porta de entrada para o universo da cultura de onde minha vida nunca mais se despreendeu, tanto é que me tornei como artista, intelectual, educador, pesquisador, um cineclubista.
Em 2019, através da Fuá de Quintal, fundei o Cine Travessia Maria Coeli, e filiei a Fuá de Quintal ao Conselho Nacional de Cineclubes brasileiros e à ANCINE, mas a atividade cineclubista remonta a 2001 quando usava de filmes para ensinar geografia brasileira a estudantes do ensino médio, técnico e EJA, a partir da linguagem do audio-visual, na UFMG, mas o amor e encantamento pelo cinema vem da infância.
O penúltimo filme de Charles Chaplin, 1952, se passa em Londres no ano da Primeira Guerra Mundial, 1914. Curiosamente, o ano de sua estréia como cineasta. No filme, Chaplin é Calvero, um palhaço de teatro de prestígio, porém decadente e acoólotra, e que impede a jovem Terry (Claire Bloom) de cometer suicídio, uma dançarina cega. De Terry, Calvero cuida até se recuperar plenamente e lhe auxilia a retomar a carreira artística ao retomar a visão, embora ele mesmo até o final do filme termine sem ter conseguido retomar sua vida artística. Ele inclusive lhe auxilia a encontrar um amor para si, Neville.
Ao retomar sua carreira num espetáculo próprio Terry convida Calvero para voltar aos palcos numa apresentação triunfante que, porém, ele por uma parada cardíaca morre minutos antes de entrar no palco com sua amiga. Luzes da Ribalta, por ter sido associado ao comunismo, só em 1972 estreou nos Estados Unidos.
Quando acabou o filme, ascenderam as luzes e saímos do Palácio das Artes fomos bem perto dali numa sorveteria que ficava na Rua Goiás, era Tio Patinhas o nome dela, se estou certo. Ela não existe mais. E os sorvetes vinham numa gigantesca taça de vidro, para um menino de sete anos de idade, e cada bola de sorvete vinha acompanhada com pedaços da fruta correspondente, chocolate Surpreza e também “a cereja do sorvete!”. Eram uns 500 gramas de sorvetes. Há uma dimensão cômica nessa memória, pois uma das primeiras coisas que comi foi justamente a cereja do sorvete, e num contexto em que andar de ônibus me fazia passar mal, e eu tinha ficado enjoado na viagem até o centro. A cereja me fez enjoar uma segunda vez e quase nada do sorvete comi. Cerejas eu continuo até hoje não comendo e chocolate Surpreza no final da adolescência já tinha voltado a saborear.
Assim, Luzes da Ribalta de simples referência cinematográfica se transformou em memória de infância, multissensorial: um filme, uma irmã, o ônibus, a cidade, o sorvete, a cereja, o chocolate, o enjoo e a descoberta.
Hoje, o núcleo dramático de Luzes da Ribalta, de onde hoje observo, envolve um de um lado um artista envelhecido que ajuda uma jovem artista a reencontrar a própria possibilidade de brilhar, enquanto ele próprio vai perdendo seu lugar no palco, na vida. Calvero, no filme, opera uma função de iluminar outros artistas, generosidade e amorosidade ao humano, e a outra função é de humildade, por que ilumina alguém ainda jovem num mundo do qual ele dacae e é retirado, na velocidade em que espreitam a guerra no porvir, há uma beleza na humildade, sabedoria que nasce do coração, ainda que diante de uma iminente ameaça de guerra mundial.
E, pensando hoje minha trajetória pessoal e social, como essa obra cinematorgráfica aparece na minha memória autobiográfica, ela conversa profundamente com valores que minhas entregas ao mundo revelam sempre, parte de minha trajetória envolve fazer as pessoas realizarem seus sonhos, brilharem, mesmo que o Fábio Brasileiro fique nos bastidores e nas platéias. Luzes da Ribalta é um filme sobre como um artista ajuda outra artista a voltar a brilhar.
Essa lembrança de Luzes da Ribalta é potencialmente importante não apenas para uma história de minha formação cinematográfica, mas também para uma genealogia de um certo modo particular de enchergar a vida e de atuar no mundo reconhecendo talentos, abrindo caminhos, estimulando pessoas e criarem condições para que outros possam aparecerem e realizarem seus sonhos.
Essa mesma irmã que me apresentou o universo do cinema também me apresentou, aos nove anos de idade, o livro, O Mistério de Kanitei, de Assis Brasil. Essa é uma memória fundadora de minha relação com os livros assim como Luzes da Ribalta também o é no campo do audio-visual. Luzes da Ribalta não aparece isoladamente, está no início de uma cadeia de formação: cinema, Luzes da Ribalta, literatura, O Mistério de Canitei, formação artística e imaginativa.
Luzes da Ribalta foi meu primeiro filme no cinema... e me permite compreender hoje que aquele filme não é apenas um exemplar de uma arte que admiro ou tema de uma postagem de facebook, mas é ponto de origem da minha relação pessoal com o cinema e o cineclubismo e, pensando essa tragetórioa, percebo que essa tarefa de iluminar pela arte e educação, de acender fogueiras de iluminar ideias, como diria Riobaldo, tem algo desse perfume que do presente ainda sinto vir através do tempo desse gesto do palhaço Calvero pela bailarina Terry.
Fábio Brasileiro

Geógrafo, Ensaísta, Artista e Pesquisador
do Campo do Patrimônio Cultural Negro
E-mail: Fabioborgesbrasileiro@gmail.com
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