O Sagrado Sendo Tratado Como Suspeito na Bahia
Ação Policial com ocorrência de sequestro transmitida pela TV causa estranheza!
A invasão do Terreiro Ilê Axé Opô Aganju, em Lauro de Freitas, transcende uma simples ação policial. Ela representa uma ferida aberta na luta pela liberdade religiosa, pelo respeito à cultura afro-brasileira e pela preservação de um patrimônio histórico reconhecido pelo Estado da Bahia.
É dever das forças de segurança combater o crime e proteger a população. Entretanto, nenhuma operação pode ignorar os limites impostos pela Constituição, pelas leis e pelo respeito à dignidade das pessoas e de seus espaços sagrados. Um terreiro não é apenas um imóvel: é um lugar de memória, ancestralidade, acolhimento e resistência de um povo que, há séculos, enfrenta perseguições e preconceitos.
Causa estranheza que a Polícia Militar, ao explicar a operação, tenha informado que atendia a uma ocorrência de sequestro, mas não tenha esclarecido os motivos que justificariam a entrada no terreiro nem mencionado qualquer elemento que vinculasse o espaço aos suspeitos procurados. A transparência é indispensável quando direitos fundamentais são potencialmente afetados.
Ainda mais preocupante foi a exposição da ação em rede de televisão. Transformar a violação de um espaço religioso em espetáculo reforça estigmas históricos que associam as religiões de matriz africana à criminalidade, alimentando preconceitos que deveriam ser combatidos, jamais reproduzidos.

O Terreiro Ilê Axé Opô Aganju é reconhecido como patrimônio histórico pelo IPAC. Mais do que um bem material, ele representa a história de um povo, sua identidade e sua fé. Invadir um espaço dessa natureza sem que haja justificativa claramente demonstrada é um ato que merece rigorosa apuração pelas autoridades competentes.
A liberdade religiosa não pode ser seletiva. O respeito que se exige para igrejas, templos, sinagogas, mesquitas e demais espaços de culto deve ser garantido, com igual intensidade, aos terreiros de Candomblé e de outras religiões de matriz africana.
O combate ao crime não pode servir de justificativa para enfraquecer direitos constitucionais, tampouco para normalizar práticas que possam ser interpretadas como intolerância religiosa. A sociedade precisa exigir investigações transparentes, responsabilização caso sejam constatados abusos e, acima de tudo, o compromisso permanente de que nenhum espaço sagrado seja tratado como território de suspeição apenas por representar a fé de um povo.
Respeitar os terreiros é respeitar a Constituição, a diversidade religiosa e a história do Brasil.
Liziane Borges

Professora, Psicopedagoga, Apresentadora
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