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Você Conhece Música Brasileira ou Só O Que A Mídia Importa e Transforma?

[...] Tratamos o MÚSICO BRASILEIRO como desconhecido. Como descartável.

Você Conhece Música Brasileira ou Só O Que A Mídia Importa e Transforma?
Imagem Chat Gpt

É curioso como muitos afirmam conhecer profundamente uma coisa, quando, na verdade, conhecem apenas aquilo que o mercado decidiu transformar em tendência.


Falam sobre Rock Internacional, mas nunca ouviram o Clube da Esquina, Casa das Máquinas, O Terço, Moto Perpétuo, Bixo da Seda, nunca ouviram Rock Brasileiro porque acham que Rock no Brasil só existiu nos anos 80. Defendem o Rap e o Hip-Hop, mas desconhecem os repentistas e os emboladores que rimavam décadas antes de o Hip-Hop ganhar as ruas de Nova York e ser enlatado pro Brasil no formato ostentação de uns anos pra cá, aqui no máximo conhecem Racionais MC’s, mas desconhecem Câmbio Negro, Sabotage, Jigazoo, entre tantos outros legitimamente brasileiros. Celebram o Blues, mas ignoram o lamento do Samba, sem entender que eles são co-irmãos. Musica Negra, viu! Consomem Indie, Folk e Soul, mas jamais pararam para escutar Cartola, Candeia, Clementina de Jesus, Dorival Caymmi, Gerson King Combo, Hélio Matheus, Mateus Aleluia ou a poesia de Belchior com a mesma atenção que dedicam a um artista estrangeiro, que muitas vezes não diz grande coisa.


A questão não é deixar de gostar de música internacional, eu gosto e isso não tem nada a ver com “complexo de vira-latas”. Ela é extraordinária e faz parte da formação cultural de milhões de pessoas, negar isso é constrangedor. O problema surge quando conhecemos cada detalhe dos movimentos que nasceram fora do Brasil, mas tratamos nossa própria produção musical como um território desconhecido. Tratamos o MÚSICO BRASILEIRO como desconhecido. Como descartável.


Por isso, me nego a dialogar sobre música com quem quer dar uma de entendedor moderno e não sabe quem foi Pepeu Gomes, Armandinho, Carlini, Luiz Wagner, Lady Zu, Evinha, Geovana. Como se o que nasce aqui fosse sempre "regional", enquanto o que vem de fora fosse automaticamente "universal" e “sofisticado”.


O Brasil talvez seja um dos poucos países no mundo capaz de reunir centenas de ritmos, tradições e linguagens musicais convivendo simultaneamente. Do Carimbó ao Chamamé. Do Frevo ao Ijexá. Do Samba-Canção ao Manguebeat. Da Viola Caipira ao Tecnobrega. Do Choro ao Funk. Do Baião ao Rock Brasileiro. Cada gênero conta uma parte da história do país, das migrações, das desigualdades, das festas, das dores e das resistências. Ainda assim, muita gente atravessa oceanos sonoros sem jamais explorar o próprio quintal.


Conhecer música brasileira não é apenas saber cantar refrões de sucessos que tocaram na televisão ou decorar playlists nostálgicas. É entender que nossa música é uma das maiores bibliotecas culturais do planeta e que ela convive muito bem com o que é feito lá fora, inclusive é vergonhoso que lá fora se consuma muito mais Música Brasileira do que aqui. O Brasil ainda desconhece Tânia Maria, Lés Etoiles ou ate mesmo Sérgio Mendes, todos artistas brasileiros magníficos. 


A nossa música fala de política, religiosidade, amor, racismo, desigualdade, infância, ditadura, migração, espiritualidade e esperança. É um patrimônio vivo que continua sendo reinventado todos os dias. Precisamos reconhecer a nossa música e entender que ela dialoga por si só com o resto do mundo sem se sentir menor.


Você conhece a Música Brasileira... ou conhece apenas os movimentos importados que encontraram espaço por aqui? Porque ouvir o mundo é importante. Mas ouvir o Brasil também é uma forma de compreender quem somos. Esse exercício não é sobre escolher entre o nacional e o internacional, mas sobre reconhecer que valorizar a Música Brasileira amplia, em vez de limitar, o nosso pensamento.






Jeff Soares

Jornalsmo

Músico

Apresentador

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