Quando Denunciar Faz Doer Ainda Mais
Da burocracia ao descrédito, passando pela morosidade da Justiça e pela revitimização, o maior desafio nem sempre é convencer uma mulher a denunciar uma violência, mas garantir que ela encontre proteção depois da denúncia.
Existe uma trsite realidade que as estatísticas não escondem: milhares de mulheres continuam desistindo de denunciar seus agressores — ou sequer procuram ajuda. Não porque desconheçam seus direitos. Mas porque muitas já não acreditam que o Estado possa protegê-las.
Embora o discurso oficial incentive a denúncia, a experiência vivida por inúmeras vítimas revela um percurso frequentemente marcado por obstáculos. Em muitas cidades, delegacias especializadas funcionam apenas em horário comercial. Municípios inteiros sequer contam com uma Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher. Quando conseguem registrar ocorrência, vítimas enfrentam demora para conseguir medidas protetivas, escassez de casas de acolhimento e dificuldade de acesso a atendimento psicológico, assistência social e orientação jurídica. Nos casos de violência sexual, a situação costuma ser ainda mais delicada.
Esse fenômeno é conhecido como revitimização institucional: a mulher, ao buscar ajuda, é obrigada a repetir sucessivamente sua história para policiais, médicos, peritos, promotores e juízes. Em alguns casos, ainda enfrenta perguntas que colocam em dúvida sua palavra ou sugerem que seu comportamento tenha contribuído para a violência sofrida. Embora protocolos tenham evoluído nos últimos anos, relatos de atendimento inadequado continuam sendo registrados por defensorias públicas, organizações da sociedade civil e organismos internacionais.
Outro fator frequentemente apontado é a lentidão do sistema de Justiça. Processos podem levar anos até uma decisão definitiva. Durante esse período, muitas vítimas continuam convivendo com o medo, enfrentando dificuldades financeiras ou permanecendo próximas de seus agressores por falta de alternativas habitacionais e econômicas.
A consequência aparece nos números. Diversos estudos indicam que a subnotificação continua sendo uma das maiores barreiras ao enfrentamento da violência contra mulheres no Brasil. Em crimes sexuais, estima-se que apenas uma parcela das ocorrências chega ao conhecimento das autoridades.
Também pesa o temor das represálias. Muitas vítimas dependem financeiramente do agressor, têm filhos em comum ou vivem em cidades pequenas, onde o anonimato praticamente não existe. Sem uma rede de proteção eficaz, denunciar pode significar perder renda, moradia, vínculos familiares e, em situações extremas, colocar a própria vida em risco.
Então, o Estado oferece condições suficientes para que elas denunciem com segurança?
Em muitos casos, o sistema acaba comunicando que buscar justiça será apenas o início de uma nova jornada de sofrimento. Enquanto uma mulher precisar calcular se denunciar será mais perigoso do que permanecer em silêncio, o Estado continuará falhando em sua missão mais básica: proteger quem mais precisa dele. Acolher também faz parte da justiça.
Jeff Soares

Jornalismo
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