Dois Anos Depois da Maior Tragédia Climática do RS, Estado Volta a Alagar Expondo Falta de Ações do Governo Eduardo Leite e da Gestão Sebastião Melo
Com rios voltando a subir, famílias deixando suas casas novamente e o avanço do Super El Niño elevando o risco de novos desastres, gaúchos se perguntam: o Rio Grande do Sul aprendeu alguma coisa desde 2024?
Dois anos se passaram desde a maior tragédia climática da história do Rio Grande do Sul. As imagens de cidades submersas, bairros inteiros destruídos, mais de 180 vidas perdidas e centenas de milhares de desabrigados ainda permanecem vivas na memória dos gaúchos. No entanto, bastaram as primeiras grandes chuvas associadas ao Super El Niño para que o sentimento de insegurança voltasse a dominar o Estado.
Rios como o Caí e o Taquari já registram novas enchentes, municípios voltam a contabilizar prejuízos, estradas sofrem bloqueios e milhares de pessoas enfrentam novamente o medo de perder tudo o que reconstruíram desde 2024.
O cenário meteorológico continua preocupante. Órgãos como o CEMADEN, o INMET e o INPE confirmaram a instalação do Super El Niño e apontam alta probabilidade de um evento muito forte entre a primavera e o verão, aumentando significativamente o risco de chuvas acima da média no Sul do Brasil. Mas, diante desse novo alerta climático, a pergunta inevitável deixa de ser apenas sobre o comportamento da natureza e passa a mirar o comportamento do poder público.
Após dois anos de promessas, bilhões de reais anunciados e sucessivas coletivas de imprensa, boa parte das obras estruturantes de proteção contra enchentes ainda não foi concluída. Em Porto Alegre, sistemas de proteção seguem em recuperação, enquanto especialistas da área continuam apontando fragilidades em diques, casas de bombas e comportas — elementos cuja falha foi decisiva para a dimensão da tragédia de 2024.
O governador Eduardo Leite frequentemente afirma que o Estado está mais preparado para enfrentar eventos extremos e apresenta investimentos no Plano Rio Grande como prova desse avanço. Na prática, porém, a percepção de muitas comunidades é diferente. Quem vive nas áreas mais vulneráveis continua convivendo com a incerteza. Em diversas cidades, famílias reconstruíram suas casas sem que as intervenções estruturais prometidas tivessem sido concluídas. O medo voltou antes mesmo da próxima grande cheia.
Em Porto Alegre, o prefeito Sebastião Melo também sustenta que a capital está hoje mais preparada do que estava em 2024 e afirma que obras foram aceleradas diante da previsão de um novo El Niño. Ainda assim, a realidade impõe um contraste desconfortável. A capital continua convivendo com pontos historicamente vulneráveis, enquanto moradores dos bairros mais atingidos observam o avanço das águas do Guaíba com a sensação de que a reconstrução ocorreu em ritmo muito inferior ao da urgência imposta pelas mudanças climáticas.
A tragédia de 2024 deveria ter alertado à política pública gaúcha. Não apenas na reconstrução do que foi destruído, mas principalmente na prevenção de um próximo desastre. Em vez disso, o que se vê é um Estado que ainda reage mais do que se antecipa. Justamente por isso cresce a responsabilidade dos gestores públicos em reduzir riscos conhecidos, fortalecer sistemas de drenagem, concluir obras de proteção e preparar as cidades para uma realidade que deixou de ser excepcional.
Dois anos se passaram, mas a sensação que permanece para muitos gaúchos é amarga: a água voltou mais rápido do que as soluções. Transformando desastres naturais em um problema também de gestão pública.
Jeff Soares

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