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50 anos de O Canto das Três Raças (1976) de Clara Nunes

[...] quando coloco pra ouvir O Canto das Três Raças, às lágrimas caem sem nenhuma dificuldade.

50 anos de O Canto das Três Raças (1976)  de Clara Nunes
Imagem Internet

Falar sobre Clara Nunes para mim é sempre algo muito emocional, não tive a oportunidade conhecê-la pessoalmente, mas sua voz embalou minha vida desde a infância e quando coloco pra ouvir O Canto das Três Raças (1976) às lágrimas caem sem nenhuma dificuldade.


Estamos falando de um manifesto artístico que deu voz à história dos vencidos, dos invisibilizados e daqueles que ajudaram a construir o Brasil sem jamais ocuparem o centro de sua narrativa oficial. Esse disco fala dos meus, da minha ancestralidade, do meu discurso e da minha jornada e eu nem estava neste mundo ainda. 


Em meados da década de 1970, quando o país ainda vivia sob a ditadura militar, Clara Nunes escolheu cantar aquilo que muitos insistiam em silenciar. Cantou a negritude, os terreiros, a fé dos orixás, o samba nascido nos morros, a resistência indígena e a força do povo trabalhador. Enquanto parte da indústria fonográfica buscava um repertório mais comercial, Clara apostava em um Brasil profundo, ancestral e popular.




A faixa-título do álbum, composta por Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro, tornou-se um dos maiores símbolos dessa proposta artística. "Ninguém ouviu um soluçar de dor no canto do Brasil..." é um verso que atravessa cinco décadas sem perder sua atualidade. A música fala da escravidão, da opressão e da exploração de povos indígenas, negros e trabalhadores, lembrando que a riqueza nacional foi construída sobre o sofrimento de milhões de pessoas.


Mas Clara nunca cantou a dor sem também cantar a esperança. Sua interpretação carregava uma espiritualidade rara. Não havia apenas técnica vocal. Havia pertencimento. Cada verso parecia nascer de alguém que compreendia profundamente aquilo que estava dizendo. Era como se sua voz carregasse o peso dos tambores, dos terreiros, das festas populares e da memória coletiva de um país inteiro.




O Canto das Três Raças também representou uma ruptura estética. Em uma época em que manifestações religiosas de matriz africana sofriam intenso preconceito — e continuam sofrendo — Clara levou símbolos do candomblé e da umbanda para a televisão, para os palcos e para as rádios com naturalidade e orgulho. Fez da própria imagem um ato político, sem precisar transformar sua arte em discurso panfletário.


O disco ainda conta com a fabulosa "Lama" de Paulo Marques e Aylce Chaves, "Alvoroço no Sertão" de Raymundo Evangelista e Aldair Soares, com a beleza de "Tenha Paciência" de Nelson Cavaquinho, que também assina "Risos e Lágrimas", "Aí Quem me Dera" de Vinícius de Moraes, "Basta um Dia" de Chico Buarque, "Fuzuê" de dois grandes parceiros de Clara, Toninho Nascimento e Romildo Bastos, "Meu Sofrer" de Mestre Marçal e Bide, encerrando com a esplêndida "Retrato Falado" de Paulo César Pinheiro e Eduardo Gudin.




Cinquenta anos depois, o álbum permanece atualíssimo porque as feridas que ele denuncia continuam abertas, na verdade nunca cicatrizaram. O racismo estrutural, a intolerância religiosa, a desigualdade social e a dificuldade do Brasil em reconhecer suas próprias raízes ainda fazem parte da realidade do brasileiro. Ao mesmo tempo, esta obra resiste como um lembrete de que a cultura também é uma forma de resistência, algo que falo muito por aqui.


Ouvir a Clara Nunes hoje é reencontrar uma artista que acreditava que cantar também era um gesto de memória, de identidade e de compromisso com o povo. Ela mesmo dizia: sou uma operária da música. Clara continua me emocionando. Não é atoa que dei a minha filha o seu nome, Clara.






Jeff Soares

Jornalismo

Músico

Apresentador

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