40 Anos de "Dois" (1986) da Legião Urbana
Um dos Maiores Álbuns da Música Brasileira e o disco da minha vida!
Lançado em 20 de julho de 1986, o segundo álbum da Legião Urbana não foi apenas uma sequência do sucesso da estreia. Foi o momento em que Renato Russo, Dado Villa-Lobos, Marcelo Bonfá e Renato Rocha provaram que o Rock Brasileiro também podia ser poesia, literatura, filosofia e confissão. Quatro décadas depois, suas canções continuam presentes em rádios, violões, bares, quartos de adolescentes e corações de adultos que jamais deixaram de procurar respostas.
O lançamento de Dois representou um salto artístico raro. Se o primeiro álbum da Legião Urbana gritava contra o sistema, o segundo escolheu sussurrar diretamente à alma. Renato Russo abandonou parte da urgência política para mergulhar em sentimentos universais: o amor, a solidão, o medo, a perda, a esperança e a passagem do tempo. O resultado foi um disco delicado, reflexivo e profundamente humano, que transformou emoções íntimas em patrimônio cultural brasileiro.

Cada faixa parece carregar um universo próprio, "Daniel na Cova dos Leões" abre o álbum como um manifesto de amor e coragem diante dos preconceitos. "Quase Sem Querer" traduz o sentimento e a necessidade de ser você mesmo sem se importar com o que os outros acham. “Acrilic On Canvas” uma letra sombria que fala sobre a desilusão do amor. "Eduardo e Mônica" desafia todas as fórmulas do rádio ao contar uma história de amor inteira sem um refrão, provando que uma boa narrativa pode ser mais poderosa que qualquer clichê comercial. Décadas depois, o casal criado por Renato Russo continua sendo um dos romances mais conhecidos da música brasileira, virou até filme.
Em "Tempo Perdido", talvez esteja condensada uma das maiores reflexões já escritas no Rock Nacional. A canção transformou uma geração inteira que se pôs a pensar sobre os caminhos da vida, sobre as escolhas e sobre a necessidade de encarar as dificuldades que existem dentro de nós mesmos. Hino absoluto da geração dos anos 80 e 90 e continua ecoando por aí a cada esquina.
Há ainda a crítica urbana de "Metrópole", um pedido de paz em “Plantas Embaixo do Áquário” a denúncia social de "Fábrica", o lirismo quase impressionista de "Andrea Doria” uma das composições mais dolorosas e belas de Renato Russo e o encerramento arrebatador com "Índios" uma das maiores canções do Rock Brasileiro com sua crítica social e humana, sobre a necessidade do homem se enxergar no mundo adoecido em que vivemos desde aquela época.

Poucos discos conseguem reunir tantas canções que sobreviveram ao tempo sem perder significado. Em Dois, praticamente metade do repertório tornou-se clássica. Não há excessos nem faixas descartáveis. Existe apenas uma sequência de músicas que dialogam entre si como capítulos de um mesmo romance.
O público compreendeu imediatamente a dimensão daquela obra. O álbum ultrapassou rapidamente as centenas de milhares de cópias vendidas, recebeu certificação de platina ainda no período de lançamento e, ao longo dos anos, tornou-se o disco mais vendido da carreira da Legião Urbana, acumulando mais de 1,5 milhão de cópias comercializadas. O sucesso consolidou Renato Russo como um dos maiores letristas da música brasileira e elevou a banda definitivamente ao panteão do Rock Nacional.
Mas os números contam apenas uma parte da história. Para mim o verdadeiro triunfo de Dois está naquilo que estatísticas jamais conseguirão medir. Está nas pessoas que cantam "Tempo Perdido" em qualquer lugar onde estiverem. Nos casais que se reconheceram na história de "Eduardo e Mônica". Nos jovens que encontraram conforto em "Índios" ao não sentirem-se sozinhos na condição de seres pensantes sobre a própria vida em movimento. Na gente que toca o disco para nos lembrar quem somos. Dois não envelheceu, só ficou maior. Continua moderno e causa desconforto em pensamentos tão antigos que ainda sobrevivem por aí. Dois é amor, medo, saudade, esperança, solidão e liberdade, que permanecem sendo as grandes questões da condição humana.
Quarenta anos depois, o segundo álbum da Legião Urbana segue acompanhando vidas inteiras. Renato Russo não escreveu apenas um disco. Escreveu um espelho onde diferentes gerações continuam encontrando a própria história.
Jeff Soares

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