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Por Um Futuro Agroecológico e Feminista

[...] as mulheres do campo, das florestas e das águas têm sido as principais responsáveis pelo cuidado com a vida...

Por Um Futuro Agroecológico e Feminista
Imagem: Gaceta CCH

A crise ambiental e climática do nosso século nos força a repensar a maneira como nos relacionamos com a Terra e com as pessoas. Nesse contexto, a agroecologia surge não apenas como um conjunto de técnicas agrícolas sustentáveis, mas como um modelo político e social que contesta a monocultura, o uso de agrotóxicos e a mercantilização da vida. No entanto, para ser verdadeiramente transformadora, a agroecologia não pode caminhar sozinha: ela precisa se entrelaçar profundamente com o ecofeminismo. A máxima "sem feminismo não há agroecologia", amplamente difundida pelos movimentos sociais de mulheres camponesas e agroecológicas ao redor do mundo, sintetiza esse elo indissociável.


O ecofeminismo é uma corrente de pensamento e ação política que aponta como a dominação e a exploração da natureza pelo sistema capitalista e patriarcal espelham e dependem da dominação e a opressão das mulheres. A ativista e defensora da soberania alimentar Vandana Shiva, uma das vozes ecofeministas mais influentes do mundo, reflete sobre como a ciência moderna e a agricultura industrial invisibilizaram a sabedoria ancestral feminina. Na visão patriarcal do progresso, a Terra é vista como uma matéria inerte a ser dominada e explorada, da mesma forma que o trabalho das mulheres é frequentemente desvalorizado e tornado invisível. A verdadeira sustentabilidade exige que recuperemos o conhecimento ecológico tradicional, no qual as mulheres sempre desempenharam um papel central como guardiãs da biodiversidade e das sementes.


Vandana Shiva


Historicamente, as mulheres do campo, das florestas e das águas têm sido as principais responsáveis pelo cuidado com a vida: desde a seleção e preservação de sementes crioulas até a diversificação do cultivo para a alimentação familiar. A agricultura de grande escala, pautada pela monocultura e pelo agronegócio, drenou a diversidade biológica e marginalizou essas práticas.


No cenário brasileiro, essa luta ecofeminista ganha contornos concretos e de forte mobilização de massa através do movimento de mulheres do campo, da floresta e das águas. O maior símbolo dessa resistência é a Marcha das Margaridas, realizada desde o ano 2000 em Brasília. Inspirada no legado de Margarida Alves, líder sindical camponesa assassinada em 1983 por defender os direitos dos trabalhadores rurais, a Marcha reúne dezenas de milhares de trabalhadoras rurais, indígenas, quilombolas, ribeirinhas e extrativistas de todo o país. Da luta de Margarida nasceu a semente: a agroecologia no Brasil é cultivada com mãos e vozes femininas.


As Margaridas foram pioneiras em pautar nacionalmente a intersecção entre agroecologia, feminismo e soberania alimentar, reivindicando o acesso à terra e ao crédito, o combate do modelo químico-dependente dos agrotóxicos e a valorização da economia do cuidado e dos quintais produtivos. A articulação das mulheres rurais no Brasil provou que a agroecologia não se constrói apenas no manejo do solo, mas também nas ruas, na formulação de políticas públicas e na denúncia das violências no campo.




A agroecologia busca a libertação da Terra e dos ecossistemas, mas não é possível falar em justiça socioambiental se a estrutura dentro do próprio lar ou da comunidade continuar reproduzindo a violência patriarcal. A afirmação "sem feminismo não há agroecologia" fundamenta-se na busca por visibilidade e autonomia econômica das mulheres, garantindo que o trabalho das camponesas na horta quintal e na venda em feiras locais seja reconhecido e remunerado com equidade. Fundamenta-se também na soberania alimentar, defendendo o conhecimento tradicional feminino contra a patente e a privatização das sementes por grandes corporações, e na premissa de que a Terra e o corpo não são territórios de conquista. A exploração predatória do solo e dos rios reflete a mesma lógica de violência que atinge os corpos das mulheres, de modo que um modelo agrícola sustentável não pode tolerar a divisão desigual do trabalho doméstico ou a violência de gênero.


Praticar a agroecologia sem a perspectiva de gênero é manter as estruturas de desigualdade que alimentam o próprio modelo degradante contra o qual se luta. Desde os ensinamentos globais de Vandana Shiva até os passos firmes das trabalhadoras brasileiras na Marcha das Margaridas, a mensagem é clara: ao unir a preservação ambiental com a emancipação das mulheres, o feminismo agroecológico propõe uma transição profunda. Trata-se de construir uma sociedade pautada pelo cuidado, pela justiça social, pelo respeito aos ciclos naturais e pela verdadeira autonomia dos povos sobre seus territórios. Restituir o protagonismo à natureza e às mulheres é a única via possível para garantir um futuro regenerativo e justo para as próximas gerações.







Roberta Luzzardi


Educadora, Defensora do Feminismo Interseccional,

Da Educação Pública e da Agroecologia

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